
A estação de Rolândia tinha acabado de ser inaugurada e todo o mundo ia para lá ver quem chegava e quem partia. E, quando alguém chegava, todo mundo queria saber o que trazia; e, quando alguém partia, todos queriam mandar alguma correspondência ou outra coisa.
A certa altura, meu pai, ainda dentro do táxi, disse: “Estamos chegando a Rolândia”. Eu olhei para a esquerda, olhei para a direita e perguntei: ‘Quando vamos chegar a Rolândia?’ E meu pai respondeu: ‘Já passamos.’ Havia uns casebres de madeira, nunca vi nada parecido em minha vida. Nem imaginava que aquilo poderia ser considerado casas – e isso era Rolândia.
Acabamos nos adaptando.”(in FISCHER, 2005, p.60-61). 17 Hertha Levy também comenta sobre sua primeira impressão da cidade: Quando cheguei, na parte de cima, na estrada, só via mata, e no meio, uma pequena clareira com uma casinha, duas vacas e um pouco de grama. Eu estava feliz e pensava: ‘Isto agora será meu. (...). Eu tinha uma paixão pelas florestas, ainda em casa, e nunca tive medo de mata virgem. Mas eu não sabia que não dava para entrar na mata. Foi uma decepção. Não dava por causa dos espinhos e das formigas. Assim foi meu começo” (in FISCHER, 2005, p.40-41).

Nos primeiros dez anos, a água era a de poço e a luz de querosene e vela. As casas eram feitas de tábuas, com grandes varandas “(...) onde se desenrola grande parte de nossas vidas e é, ainda hoje, um lar confortável. As paredes de peroba, portas e armários embutidos, o assoalho de cedro e a cobertura de telhas...” (PORTELLINHA, 2003, p.72) Os meios de sobrevivência vinham do trabalho no campo, como o leite que essas mulheres tinham que tirar da vaca antes do sol nascer, para vendê-lo na cidade era transportado por carroça. Depois passaram a vender manteiga, nata, ovos, enfim, tudo o que era produzido na casa.
Apesar de toda essa diferença na vida, percebe-se a unanimidade na conservação de suas bibliotecas particulares, como declara Herta Levi “Dávamos muita importância aos livros. Não queríamos deteriorar intelectualmente. 18 Mantivemos viva a cultura alemã, que na Alemanha estava sendo destruída. Queimada literalmente” (in FISCHER, 2005, p.43). Como comenta a senhora Inge Rosenthal: “Éramos uma comunidade bastante fechada. A maioria trouxe grandes bibliotecas, havia muitos livros para emprestar. Os senhores de grande cultura sempre davam palestras – a associação cultural alemã em Rolândia se chamava Pró-Arte” (in FISCHER, 2005, p.74) Quando se depara com depoimentos como o de Susanne Behrend que diz: “Minha mãe havia movido céus e terras para conseguir tirar meu pai do campo de concentração e para conseguir os vistos de permanência para a família” (in FISCHER, 2005, p.26), ficam evidentes os sinais da ação feminina, pois enquanto a maioria dos homens estavam presos nos campos de concentração, eram elas que corriam atrás de tudo para libertá-los e fugirem, comprovando que “elas não são apenas criaturas, são também criadoras, e modificam incessantemente o processo que as faz.” (PERROT,1991, p.141). O mesmo se percebe na sua atuação nas origens de Rolândia.
CREDITOS:
TRECHOS COPILADOS DO LIVRO:
FUGINDO DO ANTI-SEMITISMO: JUDIAS ALEMÃS EM ROLÂNDIA (PR)
Handrea Miranda de Paiva Pinceli
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